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O Tempo que Passa
por Márcio Antoniasi

Bom, pra ser bem sincero, este não é um tema que eu queria comentar por agora. Apesar de me fascinar e, de certa forma, me incomodar já há uns anos, esperava estar um pouco mais experiente pra poder ter pensado e absorvido bem mais do que tenho como bagagem por ora. Aliás, depois de escrever essas poucas palavras e imaginando o deslinde deste texto, tudo tem soado bem paradoxal.

O tema deste mês será o tempo! Eu tenho evitado falar ou pensar sobre isso, porque é algo me angustia deveras. Pensei em falar sobre alguma banda, sobre a eternidade da fama, ou, quem sabe, até sobre pastel de feira, mas essa semana em especial alguns ocorridos aleatórios me pegaram de jeito.

O primeiro, logo na segunda-feira, foi, talvez, o mais emblemático! Vamos a ele. Caminhava para o trabalho pela Brasil quando uma senhora tropeçou e caiu bem na minha frente. Uma mulher que a acompanhava, provavelmente sua enfermeira, foi rápida no socorro. Eu também. Ao se levantar, com um profundo embaraço a senhora falou: “Meu Deus, que vergonha!”.

Claro, cair no chão na avenida central da cidade é vergonha para qualquer um. Entretanto, aquela expressão veio carregada de um outro sentimento. Não sei se só pra mim, mas me pareceu que a vergonha dela era cair pela fragilidade natural do corpo e, para piorar, precisar da ajuda de um estranho para se levantar.

O passar dos anos nos vai tirando aquela autossuficiência arrogante da juventude, aquele tudo-posso que, não vou mentir, é bom pra caralho*. Quando jogo bola com senhores que já entraram na casa dos “entas”, a coisa mais comum de se ouvir é que a cabeça pensou numa coisa e o corpo não obedeceu. Pra não deixar passar, meu corpo, nas peladas, sempre foi muito desobediente também. Sou perna demais no futebol!

Nossa, escrever sobre o tempo faz minha mente ir a milhão. São tantos desdobramentos, tanta coisa e tantos sentimentos se entrelaçando, confundindo-se, transformando-se em coisas ainda não sabidas. Muito já se disse sobre o tempo. Os tempos e as eras, os minutos e os segundos, martelando impiedosamente seu tic-tac compulsório.

Ainda pretendo escrever bastante sobre nossa relação de amor e ódio com o tempo. Ainda pretendo ter muito tempo pra poder ganhar/perder tempo pensando no desenrolar da Vida. Do muito que já se escreveu, guardo sempre o texto bíblico de Eclesiastes 3:1-8 e a poesia “Apostila” de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Seguem os dois!

Márcio Antoniasi


Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo e falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz. (Eclesiastes 3: 1-8)


APOSTILA

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil...

Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

(Álvaro de Campos)


Formado em Letras e Direito pela UFMS. Um verborrágico inveterado e egocêntrico compulsivo. Escreve há 1 ano e 6 meses para o blog Opositores. Atualmente é servidor público no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Acesse: http://osopositores.blogspot.com.br


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